Uma resenha sobre Cinzas do Norte, de Milton Hatoum
Milton Hatoum, em Cinzas do Norte, preenche algumas brechas deixadas pela história sobre a dinâmica social desenrolada nos Anos de Chumbo. Mais que tanto, a obra premiada no Jabuti mostra que a ficção é capaz de proporcionar relatos esclarecedores, embora ficcionais, ainda mais sobre um cenário político tão importante como a Ditadura Militar.
O ambiente é Manaus, que, nos anos 1960, convivia com o luxo para poucos da aristocracia local e a miséria para os muitos. Nesse amálgama, prostituição, corrupção e malandragem se misturam em uma realidade que acompanha os desdobramentos do progresso, onde a lei – tão deturpada pelas vias políticas do Golpe Militar – perdia o viés do bom senso, dadas as circunstâncias da própria comunidade. O que era floresta virou bairro de periferia sem saneamento básico; o que era obrigação do Estado vira privilégio restrito.
Pela trajetória pessoal de dois amigos manauaras, Mundo e Lavo, o escritor desvela os acontecimentos de sua terra natal e que determinaram o desenvolvimento de Manaus em meio ao coronelismo, às tradições paternalistas e às revoltas juvenis de então. Guia também a trama um tratado moral, em que seus protagonistas são colocados com idiossincrasias particulares, sem maniqueísmos irreais. Mundo, ou Raimundo, com alma de artista, rebelde até quando deixou este plano, é apresentado como o filho de um casal abastado e vivido através de aparências.
Alicia, introduzida como bela, desvairada e desde sempre apaixonada por Ranulfo – tio de Lavo com quem mantinha uma relação mesmo durante o casamento. E Jano, filho de portugueses e rico, além de representar os resquícios da influência ibérica sobre cá, que sintetiza a figura do homem motivado pelo poder, atributo que só afastou-no de Mundo.
Capítulo após capítulo, são revelados personagens como Arana, artista plástico e mentor intelectual de Mundo, que de um possível pensador local se transforma em um mercenário, vendedor de artigos comerciais – afora outras surpresas que a trama reserva. Narrando tudo isso, Lavo é o menino órfão, criado pela tia, que da pobreza conseguiu formar-se em direito e obter a própria autonomia financeira. Até ele defronta-se com contradições de seu ofício, salpicado pelas causas da elite e as comuns, das de quem realmente precisa da lei.
Ele viu a transformação física da capital amazônica, que pela ótica esboçada por Hatoum acabou por ser menos substancial do que deveria. Linhas de reflexão, que extraídas do contexto local e inseridas num quadro de ampla contextualização, nos levam ao entendimento de que Brasil, de vultos continentais, vive dias de uma aparente prosperidade que, entretanto, esconde reformas mais profundas. As tidas como básicas, em rincões relegados pela governabilidade, e as nem tão escondidas assim, semeadas dentro dos palacetes do poder, onde escorrem impunidade e condescendência.

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