A fila dos ‘Joões ‘
João, 40 anos, acaba de ser demitido. Era operário do chão de uma fábrica de calçados. Tem dois filhos e a esposa em casa, bem como uma infinidade de dívidas, a maioria delas crediários em uma loja de departamentos, onde o lucro está nos juros das transações populares a perder de vista. Afora as prestações da geladeira, João tem que pagar o aluguel que consome 50% de sua renda, pagar o supermercado e, se possível, fazer um churrasco no fim de semana – afinal diversão, mais ou menos cara, também é item básico. Agora passa a receber o seguro-desemprego, um placebo de efeito momentâneo, uma indefinição no seu currículo que vai se transformar em idas angustiantes às agências de recrutamento e PATs (Postos de Atendimento ao Trabalhador), com sua carteira de trabalho surrada pelo tempo e com alguns registros acumulados como pedreiro contratado por uma construtora. A liberação do FGTS também demora a sair e a consternação aumenta. João não terminou o ensino médio e não tem nenhum curso de qualificação. Passou da idade ideal para o mercado, a faixa dos 20 aos 30 anos, aquela que dispõe das oportunidades do ainda começar. Com sua faixa etária, já deveria estar no ponto auge de uma carreira profissional, gozando de benefícios e estabilidade. Não é o que acontece. Mas “graças a Deus” os filhos estão crescendo, a família é estruturada e todos sabem que precisam correr atrás. A filha de 18 anos, Scheila, vê a propaganda na TV sobre o último celular da Nokia que toca mp3 e grava vídeos em alta resolução. Ela o quer, ainda que o preço total do aparelho represente o dobro do que o salário que receberá por mês no novo trabalho: atendente de telemarketing.
Dedicado aos estudos, o irmão mais velho, Wellington, 19, conseguiu uma vaga na FATEC e através do curso de tecnologia da informação e de sua iniciativa já estagia numa desenvolvedora de softwares. A situação é corriqueira e, ainda que repleta de percalços, é relativamente otimista num cenário como o Brasil, um país que conta hoje com mais de 40 milhões de pessoas (22% da população) abaixo da linha da pobreza. Caso andasse na direção inversa, seria uma triste crônica urbana, uma representação legítima do prejuízo social decorrente do desemprego, relacionado a problemas contemporâneos como tráfico de drogas e violência. João e seus filhos poderiam ter entrado para o crime organizado, caso a lâmpada do bom senso não fosse acesa.
Nos últimos meses, devido à recessão que assolou economias em todo o mundo e afetou toda a cadeia produtiva – das indústrias às redes de serviços -, os números de postos de trabalho extintos tornaram-se assustadores e pegaram muita gente como João de surpresa. Mesmo na onda de recuperação que se ensaia, com pacotes de estímulo econômico como o isenção de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e o programa “Minha Casa, minha vida” – os quais movimentaram os setores automobilístico e imobiliário, permanece a sombra da desconfiança. Em julho, Dieese e Fundação Seade constataram uma taxa crescente de desemprego de 15% em seis regiões metropolitanas brasileiras, o que seriam pelo menos três milhões de brasileiros na fila dos economicamente inativos.
Há motivos para sorrir e números alentadores, apesar de pequenos diante da imensidão continental brasileira. Após correr e correr atrás de um trabalho, João está perto de conseguir uma vaga; vai ajudar no transporte de alimentos de uma franquia, tipo de negócio que está em bom momento. A ABF (Associação Brasileira de Franchising), em números recentes, projetou que aproximadamente cem empresas vão ser abertas no ramo, o que poderá gerar por volta de 225 mil empregos diretos e indiretos.
No fim dessa história, um ponto para reflexão: outros “Joões” podem ter aderido a um curso comunitário de panificação, estar vendendo DVD pirata na praça, se virado para terminar o supletivo, ou dessem sorte em uma grande corporação ao demonstrar algum talento especial que prescindiria de diploma. Essas são algumas das saídas, às vezes próximas do status de milagre, permitidas pela livre iniciativa, que em contrapartida deforma a pirâmide social e tolhe a oportunidade de quem tem bem pouco para começar. O posicionamento do Brasil no mundo já é bem diferente das últimas décadas, felizmente. O país tornou-se credor do FMI e atingiu em 2008 o nono PIB mais alto do mundo – US$ 1,94 trilhão. Uma riqueza, entretanto, que ainda não gera desenvolvimento humano em larga escala.
O Brasil está em 70º no mundo em IDH e registra 25% de sua população nos índices de analfabetismo funcional. Por aqui, em suma, ainda se faz presente a máxima de um país emergente: o de cima sobe e o de baixo desce.
Almas-pedaços
Estão obsedados. São almas, pedaços, esparramados pelo chão da inconsciência. Buscam a liberdade naquilo que os aprisiona, esquecem-se do mundo através do material. São incapazes de reconhecer o erro, aliás, os erros não há nessa constelação forjada do tudo poder. Errar, dentro dessa concepção desmedida, é negar o que se é – mas nem eles sabem o que são. E eu estou no meio dessa multidão, olhando para o plasma e decifrando o caminho.
Sou tão igual às vezes, porém quando me diferencio me sinto tão jovem quanto ou até mais repleto desse jarro de vida tão mal bebido.
São jovens que bebem o líquido da vida com a voracidade que lhes entorpece o poder de distinção. Têm tudo nas mãos, mas às vezes queriam não ter tantas opções. Quem sabe assim teriam do que realmente reclamar e iriam à luta. Quem são esses, quem sou? Um bando de serpentes disputando o decadente espaço do vago privilégio de repetir-se nos ciclos e adiar os compromissos do mundo e do mistério.
Defendem-se das acusações, entretanto nada fazem de concreto para provar o contrário. E nem sequer precisam provar. Confundiram o verdadeiro sentido do que é seguir o coração não importam as conseqüências. Acham que não devem nada a ninguém. E seguir o coração é uma piada nos bares e baladas. Só vale mesmo na hora dos filmes ou de adiar e abandonar projetos. Estão prontos para o mundo e amedrontam-se com o inesperado. Mal sabem a direção da chuva e do vento, mal percebem quando alguém realmente precisa de ajuda; porque eles próprios dela necessitam.
A consideração de que tanto falam é mera trapaça. é uma maneira inconsciente de agregar pessoas, conjugá-las conforme conveniência nas páginas virtuais de relacionamento. Muitos são amigos de palavra, não de ato.
A palavra perdeu seu valor. Malversar faz parte do jogo e está tudo bem porque isso não é pecado, é esperteza. O pecado não existe, é convenção de um grupo religioso radical. E assim crer em algo sem explicação racional é cafona, apesar das frequentes espiadas na página do horóscopo.